Acaso
Olá, o ontem nunca chegou a começar. Quando eu saí da cama, foi com a convicção de que o sono não tardaria a vir. Entrei no banho. Me distraí desenhando nas paredes do box com o sabonete e me peguei pensando em uma frase do
Nietzsche: “Há uma inocência na mentira, que é o sinal da boa fé em uma causa”. Não sei se entendo bem, mas sei que Nietzsche ganha de longe como pior leitura em noites de quetionamento existencial.
Me vesti com a mesma roupa cinzenta de qualquer dia, prendi o cabelo da mesma for bagunçada no lugar certo. Decidi tomar o café-da-manhã na rua, a vontade de preparar algo em casa mesmo inexistia, quase como eu no mundo. Pessoas como eu passam pela vida sozinhas, no máximo se leva e se deixa um pouco com cada rosto que eu já vi ao acordar. Deixei o alívio do ir embora sem precisar olhar para tras e para o lençol manchado, e trago o vazio dos olhares cínicos.
Sentei no banco de uma praça no centro. As árvores velhas balançando suavemente, as calçadas quebradas, os pombos voando e voando. Talvez eu devesse voltar para casa, talvez eu devesse entrar no primeiro ônibus que aparecesse. Talvez eu não devesse cobiçar tanto a perfeição, perceber todos os gestos e cores, valorizar tanto os sonhos.
Lembrei do rapaz que me apareceu subitamente semanas atras, acabara de ser assaltado a algumas quadras deste mesmo banco de praça. Eu o ajudei a contragosto, e evitei olhar em seus olhos da melhor forma que pude, fosse por asco da boca cortada e o colarinho sujo de sangue, fosse por não conseguir encarar o meu próprio reflexo. Me dou o benefício da dúvida, para não me enganar mais uma vez. Ele me agradeceu formalmente, virou as costas e se foi. Que bom, pensei. Moça, será que posso usar o seu telefone? Levantei a cabeça e o encarei pela primeira vez. Me apaixonei naquele instante. Não respirei durante os 2 minutos que duraram sua ligação. Soltei a respiração e sua presença. Nunca mais o ví.
Se tudo fosse perfeito hoje, eu pularia em um abismo.