Dubitanto ad veritatem
Desde muito pequeno eu escuto uma antiga história de família, passado do líder do clã para o seu primogênito. Uma história que exalta a coragem e determinação de meus antepassados, e me prepara para o que está por vir daqui a 2 semanas, quando eu completo precisos 14 anos e 14 meses. Desde pequeno eu ouço falar da Macieira Azul.
A história diz que o fruto da Macieira, tem a casca azul, brilhante como se fosse feita de safira, e o interior é vermelho, com o gosto do sangue dos que não acreditam no seu poder. Ao comer a Maçã Azul, não só serei abençoado com a sabedoria de meus parentes, como terei forças suficientes para levar adiante minha dinastia, quando chegar a hora.
* * *
Quatro horas. Estou sentado aqui a quatro horas e a Maçã Azul ainda não apareceu em meio aos galhos. Está ventando muito, e as rajadas de ar trazem consigo pequenas gotas de chuva que se chocam contra meu rosto, com tal ferocidade que poderiam me cortar em pedaços.
Eu sempre tive medo do escuro, mas esta noite gostaria de enfrentar todos os monstros que habitam as histórias infantis que minha mãe me contava. Está escuro, e a minha espreita estão apenas os meus próprios demônios, rindo de mim, e prontos para me impedir de completar minha tarefa. Hoje a noite não há salvação, os que não conseguiram morreram tentando.
* * *
Uma aranha desceu o tronco e parou suficientemente perto do meu ombro, de modo que eu possa ouvir o que ela fala:
- Faltam apenas 20 minutos para o alvorecer.
- Estou ciente disso. Respondi com a voz embargada. A Maçã ainda não apareceu.
- Quisera eu ser a portadora de uma boa notícia. Quem me dera vir lhe dizer que a Maçã está dobrando alguma esquina da existência a poucos minutos daqui. Entretanto, estou aqui para lhe alertar que você está fadado ao fracasso.
- Não posso! Os homens de minha família são como deuses, é meu destino.
- Reconheço que é tentador afirmar ser um deus, ao invez de um homem. Mas sempre há opções, Como deus, você não teria o direito de interferir na vida dos homens. Mas se é o seu desejo, há opções…
* * *
Estou parado à beira de um lago, nunca reparei como ele bonito. Na verdade, as únicas vezes que desviei meu olhar para essa direção, foi para olhar com desprezo as crianças de classe inferior que aqui brincam nas tardes quentes de uma verão sufocante.
Com um grande suspiro, coloco todo o ar de meus pulmões para fora e me deixo cair na água, para nunca mais sair. A partir de hoje eu não sou um homem, e muito menos afirmo que sou um deus… Eu sou uma força da natureza.
E tenho pena das crianças.